Será que é nisso mesmo que acreditamos? O que esperamos? Por que temos de esperar algo?
Esperar é um dom de poucos, já ouvi. Na verdade, esperar é outra coisa. Faz parte de toda uma mística do acreditar em algo. Não interessa se a crença é no humano, no divino, faz parte de um todo social. Certamente, é uma forma de acreditar na vitória de uma luta, uma batalha, ainda que essa aconteça dentro do íntimo do indivíduo em busca da verdade de si, ainda que seja uma luta contra poderes instituídos, prejudiciais, alienantes, discriminadores.
Então, até que se acabe a esperança, podemos esperar mais e mais lutas, a mística a respeito da crença nas coisas é humana, reproduzível e aprendida, geração a geração, e estimulada, mesmo dentro dos mais agressivos dos ateísmos, mesmo dentro da maior racionalidade, dentro da mais estrita, positiva e previsível ciência. Há que se acreditar, há que se esperar que as coisas deem certo, que sejam, no mínimo, aquilo que desejamos, ao menos em parte. A esperança é passada cabeça a cabeça, mente para mente, sujeito a sujeito, para todos aqueles que, ávidos pela verdade de si, tendo perdido ou não o vínculo com uma religião institucionalizada, acreditando ou não em uma transcendência.
A espiritualidade está aí, como uma forma de podermos afirmar que o homem está em busca dessa verdade de si, preconizada primeiramente pela religião, mas que, na falta dela, pode ser fornecida por toda uma série de crenças, que, quando se apresentam muito raleadas na dispersão da pós-modernidade, aparecem de modo a não parecer, de cara, uma religião. Assim, muitos de nós creem, por isso militam, unem se partidos, associações, grupos de estudo e debate, leem livros apaixonadamente, reformulam teologias, começam novas religiões ou jamais se desligam da religião, mas a ressignificam, dentro das possibilidades modernas de objetivação e da subjetivação que se apresentam na modernidade, tudo isso para que possamos continuar a ter esperança, achar no futuro, no devir, a motivação para passar pelo árido presente, suas dificuldades e dores cotidianas.
Nós, gays, ainda continuamos a crer, a despeito de nossas dificuldades de existência, impostas pela subjetivação a que fomos submetidos e a que somos, até certo ponto, submissos. Muitos de nós ainda são clandestinos dentro de um catolicismo ou de um protestantismo que ousamos praticar em silêncio. Muitos gays que eu conheço, e eu sou um deles, entram dentro de Igrejas Católicas de cabeça erguida, participam plenamente de uma missa, mesmo sabendo que há, nesse ato, pelos olhares de muitos, um pecado grave, e saem de lá do mesmo modo, acreditando, rezando, porque já não é mais necessário que, para eu que encontre a verdade a respeito de mim mesmo, eu seja sinistrado pela opinão massacrante de um padre que me ouve em confissão, já que há uma possibilidade de que eu realize, com um Deus imanente e transcendente, uma relação direta, na qual o papel do sacerdote é minimizada na parte essencial daquilo que me fará um sujeito crente.
Por que isso acontece? Por que é permitido que eu faça isso? Ainda não sei. Não fiz ainda todas as perguntas e nem me esforcei para respondê-las, mas tenho algumas meias-respostas. Em primeiro lugar, acho que, por influência, em primeira mão de outras religiões ou filosofias espirituais, como o protestantismo, o kardecismo ou mesmo as religiões de cunho oriental, as concepções a respeito de um Deus-homem, pessoal, bravo, agressivo, rígido, rigoroso, legislador e judiciário do mundo tem perdido espaço para uma compreensão mais deísta do mundo, a dispersão desse mesmo Deus nos efeitos de sua obra, a despersonalização desse Deus, que também é sujeito e objeto do conhecimento de um saber. O homem moderno pode estar a não ver mais em si a figura de um Deus pessoal e taxativo. Pode ser por isso. Em segundo lugar, diferentes concepções religiosas têm dado, ao longo do tempo, diferentes níveis de responsabilidade ao homem, no tocante à sua salvação. Quando da instituição do cristianismo como religião oficial do Império Romano, era tarefa do homem dar-se ao poder pastoral da Igreja, para que essa pudesse conduzi-lo, não inconscientemente, cegamente, mas por meio da consciência da necessidade de se produzir a verdade do indivíduo, e por meio disso, alcançar-se a salvação. As sucessivas perdas desse poder pela Igreja, a sua divisão com outros saberes e instituições não minaram a fé, não acabaram com a influência da religião, que foi se ocupando de problemas tidos por espirituais. Outras formas de espiritualidade entraram na Europa, aconteceu a Reforma Protestante, e a medida que nos aproximávamos ao fim do século XIX, menos força tinha o Catolicismo Romano e sua disciplina sobre os corpos. Mas essa força ainda é considerável e passível de produzir muito controle. O protestantismo copiou esse modelo da sua matriz, transformando o seu fiel no modelo de ética cristã que entrou século XX adentro. O espiritismo kardecista, sua revelação e todo o seu empirismo e comprobabilidade tão propalados não ficou atrás, ainda hoje é altamente normatizador de consciências, quer vivas ou não, de corpos físicos e astrais, e traz nos seus preceitos e ensinamentos um apelo claro para a disciplina, para a diferenciação dicotômica e clara entre bem e mal, e como o protestantismo, apoia-se na burguesia e exalta seus valores para continuar existindo. O que difere, no meu ponto de vista, é a responsabilidade que é dada ao homem pela sua salvação. Não regressarei até a Patrística, mas posso afirmar com algum grau de certeza, que ao sujeito católico romano que emergia no século da Reforma Protestante, cabia boa parte do esforço para que ele fosse salvo. O Cristo que morrera pelo indivíduo, no Evangelho, agora tem morrido por uma massa disforme de humanidade, e mesmo que nada possa fazer o crente para substituir o sacrifício vicário do filho de Deus, ele tem de correr atrás para não cair no Inferno. A Reforma reavivou teorias teológicas da patrística, como a predestinação calvinista, outras oriundas de heresias já combatidas e supostamente obliteradas, como o anabatismo, o docetismo, o unicismo, o monofisismo, que puseram, em algum ponto, em cheque o papel de Cristo na salvação do homem. Muitas denominações protestantes, notoriamente as calvinistas, apoiam a ideia de que nada o homem deve fazer para ser salvo, já que Deus escolheu de antemão aqueles que vieram, vêm e virão a ser. Outras, enfatizam o fato de que a fé em Deus deve ser mostrada por meio de obras, tais como a caridade ou o esforço do próprio crente em favor da fé. O clero das igrejas protestantes tende a ser laico, o trabalho é difundido entre todos como forma de se louvar a Deus e a evidência da bênção do mesmo. O espiritismo condena totalmente o homem a penar pelos seus atos. A crença em vidas passadas, e que, em cada vida na terra um ser passa por provações, castigos, benemesses e boas oportunidades para a sua evolução destrói completamente a ideia de que alguém se sacrificou pelos pecados de muitos. Para o espiritismo, Cristo não é o salvador do mundo, mas um modelo de salvação, um paradigma.
Hoje, há uma convivência supostamente harmônica entre todas essas formas de religião. Numa rua, perto da minha casa, há um centro espírita, uma igreja protestante e uma paróquia católica. No mesmo raio de um quilômetro. As pessoas já encaram com naturalidade a diversidade de religiões. Católicos, espíritas e kardecistas chegam falando de um mesmo Deus e de um mesmo Cristo, mesmo que queriam dar ao crente responsabilidades diferentes na sua compreensão da verdade de si que o levará à salvação ou a uma existência melhor no porvir, de qualquer modo. O que fica claro é que o homem ainda passa pela subjetivação em que é culpado dos seus pecados e omissões. O católico tem de se arrepender, confessar-se, cumprir as suas obrigações ritualísticas, o protestante tem de obedecer cegamente à pregação da palavra, dizimar e mostrar que está no meio dos eleitos, espírita precisa de vários esforços de caridade para a sua evolução. Em que acreditar?
A verdade é que com tanta oferta, com tanta “liberdade”, muitos ficam exatamente onde estão, por não sentirem a necessidade de correr atrás de quem os aceite. Se as religiões cristãs, por exemplo, são discriminatórias e taxativas, eu posso agir contra essa discriminação apenas por evitar de dizer ao padre ou ao pastor os meus pecados que podem por em risco a minha participação no grupo. Na realidade da vida religiosa urbana, padres, pastores e outros tantos responsáveis pelas religiões podem não ter tempo e nem disposição para investigar vida por vida de cada fiel, para barrá-los à comunhão. E caso alguém se ofenda com palavras ouvidas em púlpitos, altares e palestras abertas, há a opção de acreditar no que for mais conveniente, ou compor uma fé ritualizada a partir da bricolage de elementos diversos de uma ou outra crença.
Posso ser espírita, maçom, místico, umbandista e continuar a comungar na missa, mesmo que padres achem errado. Posso continuar a frequentar os cultos e contribuir com dinheiro ou trabalho voluntário onde, muitas vezes, isso é muito importante e desejado. Só não posso sair por aí sendo “eu mesmo”, como já ouvi muitos dizerem. Basta um mínimo de discrição.
Entenda-se ser “eu mesmo” o agir como homossexual de modo aberto. Casais gays não costumam ir a missas de mãos dadas, não se beijam em praça pública com frequência, não casam no religioso nas Igrejas Romanas ou Evangélicas Protestantes, Pentecostais ou tantas outras. As exceções nem sempre são procuradas com esse fim. A Igreja ainda é taxativa e proibitiva e o kardecismo não vê com bons olhos as minoriais sexuais no exercício de sua subjetividade. No entanto, a objetivação do sujeito no exercício da sua espiritualidade não é mais domínio de um só saber religioso ou mesmo dos saberes religiosos, apenas. Se por um lado, um ecumenismo às avessas parece aparecer como uma forma de reação à falta de piedade de todos os religiosos, uma crença correndo paralela à oficial, há na verdade a transversalidade dessa forma de crença e de outras, que parecem se opor à tradição religiosa excludente.
Assim temos os hedonistas, os arraigados na heteronormatividade, os militantes reacionários, todos imbuidos da mesma esperança do religioso: a de encontrar nessas práticas a verdade de si. Ainda que importe sobremaneira o que objetiva o sujeito homossexual, claramente isso não é mais privilégio da clínica e da religião. O sujeito emerge de outras formas de objetivação, que detém também o poder pastoral que o Estado havia integrado da religião, no século XVI. Se Foucault, em 1982, escreveu que as Igrejas Católicas e Protestantes assistiram à difusão de seu poder a todo um corpo social institucionalizado, posso afirmar que há, no caso das minorias sexuais, instâncias em processo de institucionalização que, no momento em que esse texto está sendo escrito ainda são vistas como formas de resistência, mas que aos poucos, tem conseguido impor sua existência e influência, no lugar de outras instituições como a família, a medicina, a psiquiatria, a educação e os empregadores.
Desse modo, tem-se sempre algo que gera a esperança no porvir, retroalimentada pelas formas de resistência que ainda continuarão a existir. Há uma luta em curso pela igualdade entre heterossexuais e LGBTT. Provavelmente mais avanços nesse sentido gerarão mais insatisfações, já que a luta pelos direitos dos LGBTT que venha a levar a uma equiparação de direitos pode gerar práticas de subjetivação normatizadoras, e o que ainda não sabemos é se, após a tão propalada liberdade, teremos identidade, já que essa é outra faceta do poder pastoral, uma “tática” sua é apelar para a individualização, mesmo que tenha, em seu outro polo, o apelo para a globalização assujeitadora.
Se o poder é resultado de um consentimento sem consenso, percebo claramente que aqueles que lutam pela igualdade, lutam para que possam todos estar no mesmo ponto dentro da esfera do poder. O que ainda não vi, não li e não ouvi ninguém falar é que a igualdade entre nós e os heterossexuais é necessária, porém indesejada, porque podemos não querer ser tão livres quanto eles são, uma vez que entendemos que somos menos. Não é ainda plausível, justo e natural que nós, LGBTT desejemos uma ordem que nos caiba, uma democracia que conte conosco, uma ética do que é bom para si, um Estado que não normatize aquilo que eu posso ser, como posso ser e ainda não cumpra com o mínimo que ele mesmo promete em suas legislações e modelos administrativos.
No entanto, para que ninguém pense nisso, porque tudo tem de ser feito passo a passo (tem? Onde está escrito?), a esperança de um mundo melhor vem para substituir a reflexão contínua. Deixemos para as outras gerações. Eu, no entanto, quero continuar pensando, remexendo, até que a mínima das esperanças se acabe, e no lugar delas, haja possibilidades claras de ação do sujeito em ética e verdade de si diferentes das atuais.