O almejar do impossível.
Tenho acompanhado, há algum tempo, uma série de discussões a respeito de relacionamentos, em várias ocasiões, especialmente em fóruns de discussões de grupos do Facebook. Engraçado é que nunca se tem um tópico específico para isso, é verdade. Há uma ausência de abordagens diretas sobre esse assunto. Na verdade é claro que isso acontece desse modo. O grande chamariz de todas as discussões dentro do universo da diversidade sexual ainda é a homofobia, ainda são os direitos civis de gays, lésbicas, travestis, transgêneros e intersexuais. Falar sobre relacionamentos nesse âmbito seria tocar em assuntos de origem pessoal. Até certo ponto, não haveria porque se discutir coisas de cunho privado e que cada um resolve ao seu modo.
Que cada um resolva ao seu modo, até que admito que assim seja, mas que seja algo de todo privado, não o é mesmo. Sobre o relacionamento pesam toneladas de padrões de comportamento que recebemos de fora, e o mais pesado deles, ainda é o modelo heterossexual de família nuclear, baseada em dois progenitores, filhos e parentes organizados em ramos de árvore de relações. Digo isso sem medo de estar a dizer bobagem, principalmente em épocas em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo biológico já deixou de ser uma coisa sublegal, e é reconhecido como um avanço no direito de todos os seres humanos. Já que agora pode, que agora é legal, como vou organizar a minha vida a dois, meu parceiro e eu? Vou importar o modelo de casamento que vi meus pais levarem adiante? Optarei por abordagens menos ortodoxas de união, baseadas em experiências que aconteceram após o feminismo, o flower-power, a era dos hippies, o rock’n roll, as crises do petróleo e a atual crise das economias europeias e da americana também? O que parece ser o melhor?
Não sei exatamente o que pode ser melhor a duas pessoas, independentes se são homo ou heterossexuais. O que eu acho é que há coisas que podem e devem ser evitadas, certamente. Minhas sugestões ficam em se rever, ou pelo menos se discutir a respeito de como cada um terá a liberdade de usar seus próprios corpos, em conjunto ou em separado, a forma como cada um deverá viver a sua vida com seus gostos particulares, o que deve ou não ser considerado traição e a responsabilidade que temos com a quantidade de afeição que temos a dar para nossos companheiros. Certamente, os maiores dos problemas de relacionamentos passam por essas coisas que eu disse acima. Principalmente no que tange ao uso do corpo, nós tendemos a repetir os padrões do poder patriarcal sobre o corpo da mulher, mesmo que o nosso parceiro não seja mulher, mesmo que não sejamos as mulheres deles. Assim como tendemos a nos resignar ou a sacrificar necessidades estéticas, sensoriais físicas em nome da convivência com uma pessoa de gostos incompatíveis. Assim como temos a tendência de nos sentir satisfeitos em nossos relacionamentos e querer que isso sempre esteja desse modo, sem exatamente questionar se o outro se sente do mesmo modo, ou de modo parecido ou se pelo menos sente satisfação, e em quê.
Hoje, ainda, numa mensagem de perfil de Facebook, um contato desabafava o desejo, e talvez a realidade, de que ele acha certo ter mais de um namorado, mais de uma relação. O problema, ao meu ver, é conseguir ter tempo para tudo isso, não vejo porque haver restrições de origem numérica. Em épocas que relacionamentos monogâmicos mais profundos e comprometidos tiram-nos o tempo e as possibilidades de se ter vida própria e até mesmo de termos companhia e satisfação ao mesmo tempo, ter isso em dobro parece ser algo realmente notório.
O que queremos, quando queremos mais do que um é pelo menos um que valha a pena, em muitos dos casos. E nesse âmbito, eu me pego a pensar no que realmente está a faltar num relacionamento: estamos felizes de ter sexo com uma pessoa só, ou pelo menos com o peso dessa regra sobre nossas cabeças? Temos nossos gostos respeitados, nossas vontades de alguma forma satisfeitas? Sentimo-nos traídos quando descobrimos que nossos parceiros demonstram desejo ou afeição por outras pessoas? Temos sido suficientemente alimentados em nossas necessidades afetivas? Temos oferecido afeição de maneira suficiente para o outro? E de que modo outro relacionamento pode nos dar o que falta? É muito a responder, mas é um roteiro seguro para a certeza de se estar num centro confortável de existência como par de outro.
Não tenho uma só resposta para suas perguntas. Talvez, apenas um conselho disfarçado… risos: Entreguem-se! Eu não conseguiria, nunca traçar um roteiro para o amor e o convívio com um parceiro, por que me julgo muito imperfeito. Talvez pedisse para ele muita paciência comigo. Acho legal a gente tentar não reproduzir padrões heterossexistas de comportamento – ou, ao menos, refletir sobre -, mas acho muito difícil. Não somos perfeitos e ainda, na verdade, não sabemos aonde dará a nossa luta, acho mesmo que ela nunca terá um fim. Nunca gostei da palavra “fidelidade” que, você, maravilhosamente, não a usa, aqui, pela carga de moralismo que carrega. Prefiro, lealdade. E não vejo uma mera trepada ou o sexo “fora” do relacionamento como “traição” ( outra palavra estranha)… vi em minha vida tantos casais que nunca treparam fora e eram absolutamente monogâmicos, mas traiam e traíram o parceiro com outras coisas graves que não o sexo. Abandonar um parceiro por que ele ficou doente ou por que perdeu o emprego e o nível de vida que tinha não seria , também, uma “traição”? E os que dizem amar mas vivem falando mal do parceiro?
O problema, ainda, é que não sabemos amar, por que amor também tem carga destrutiva e de ódio.
Tento apenas viver, hoje tá de bom tamanho…
Espero que, algum dia, percebam o quanto esse teu texto é importante e maravilhoso…
Beijo do fã!
21/08/2011 às 10:03
Eu só consigo, no momento, refletir e me sentir angustiado! Ainda precisarei de muitos meses para filtrar tudo! Quando eu me sentir bem novamente e lembrar, eu volto aqui e digo o que penso a respeito de suas reflexões! ;~(
11/01/2012 às 18:33