Rafinha Bastos e outros linguarudos
Contra toda a burocracia que há para se conseguir uma chance na TV, qualquer pessoa, com um mínimo de recursos pode se filmar, se gravar e lançar conteúdo na Internet. Isso dá margem para muita coisa. A TV pauta-se por preceitos estéticos definidos, exige certa adequação entre as coisas, exige um nível profissional. Muitos, quando chegam à TV já são conhecidos em outros meios. Aqui no Brasil, ir para TV significa chegar a um topo, que só se chega com muito talento ou com muito dinheiro. Na Internet, no entanto, não há necessidade de tanto. É muito mais fácil. Mas que se estabeleça, portanto, nessa discussão, a clara noção de que estar na TV e até mesmo no rádio significa fazer algo com qualidade, pelo menos por aqui.
Nesse circuito de prestígios e poderes é que podemos compreender o fenômeno Rafinha Bastos. Engraçado e relativamente bonito, fez carreira com stand-up comedy antes de integrar um programa semanal de relativo sucesso na TV. O maior problema de Rafinha, é a sua suposta e oportunista necessidade de agredir verbalmente, em nome da liberdade de expressão. A licenciosidade que ele encontrou ao fazer piadas acusatórias e difamatórias, ao agredir mulheres, gays e personalidades, por supostamente incitar o estupro encontra barreiras na TV, mas acha na Internet amplo público e canal de expressão. Rafinha Bastos teria supostamente, em entrevistas e declarações, se portado homofobicamente, ao responder a respeito do assédio de homens e mulheres que viessem a achá-lo bonito. Sua piada infame a respeito da “Casa do Heterossexual” ironiza o apoio social dado a gays em casos de risco social, e sugere que heterossexuais teriam o direito de discriminar. Os casos de agressão verbal são maiores e claramente documentados pelo seu microblog. Pessoas como ele são a prova clara de que não estamos nem preparados para uma sociedade mais justa, nem mesmo para uma sociedade mais livre. Nós temos uma sociedade que repudia a justiça por não aceitar a diferença, e por sua vez, temos uma sociedade que repudia a livre consciência, a liberdade de expressão de diversas formas.
Rafinha Bastos foi pego nessa armadilha. A mesma sociedade que censura gays por motivos de moralismo, censura também o blá-blá-blá agressivo de humoristas. Em tese, ele deveria ser, no máximo, taxado por produzir coisas que não agradam o público, mas não. Foi claramente demonizado como o portador dos males da língua. Hostilizado por gays, mulheres, pessoas de bem, Rafinha Bastos segue como uma espécie de mártir às avessas da liberdade de expressão, e tudo isso nos faz pensar se queremos ou não isso. Se podemos ou não ter esse direito. Se esse direito traria paz ou anarquia à sociedade. Esses questionamentos só são possíveis porque o certo é que não temos o direito à livre expressão no Brasil. Não gosto do Rafinha Bastos. Acho que humor pode prescindir de agressão, embora fique preocupado com esse surto de bom-mocismo que insiste em nos afetar no dia-a-dia, ensinando-nos valores e respeitos acumulados em camadas sobrepostas que nos levará inevitavelmente ao silêncio, um dia.
O chato é que a sociedade reage à expressão livre com seus milhares de tabus e preconceitos. Isso é um problema sério, que embora possa calar um pedante como Rafinha Bastos, cala também aqueles que gritam por socorro e que precisam ter voz. Ainda que eu não goste desse humorista, eu me sentiria bem melhor se ele fosse apenas taxado de mal-educado, grosseiro, mau humorista. Eu sei como lidar com isso. Eu consigo pegar o controle remoto da TV e mudar de canal, quando o programa dele começa, eu não compro seus DVD, não o sigo, não vejo seus vídeos. Ponto final. Para mim está resolvido. Por pior que seja Rafinha Bastos, dói-me mais ainda saber que ele está sendo censurado, porque de censura eu entendo muito bem, cresci não podendo dizer o que eu queria, nem para mim mesmo, fingindo que era algo que eu realmente não era. Isso não é legal. Devia-se responsabilizá-lo por seus dizeres, não amordaçá-lo. Se há crime no que ele fez, devia-se cobrar da Justiça que ele pagasse por isso, mas sem forçar a continuidade da falta de liberdade de expressão.
Até porque, tudo o que Rafinha Bastos fez, foi afrontar a moral, os costumes de uma sociedade que se vê representada por uma entidade fantasmagórica chamada “gente de bem”, que se ofende fácil, que se irrita por qualquer merda. Estávamos acostumados a ver gente fazer isso, a falar de outra posição. Se era Dercy Gonçalves, era mulher e mulher não se levava a sério. Se era humorista, fazia-se isso de modo mais velado, se fosse passar na TV. E o problema é que passou na TV. A estética de TV exige uma pasteurização das coisas que vão passar, o que é diferente da Internet.
Continuo a não gostar do Rafinha Bastos, mas é chato que inteligentes como ele tenham que se calar. Nesse meio todo, admiro o Pecê Siqueira. Nada nele o marca como polêmico, agressivo e sua produção abriu espaço para o comum/incomum no mainstream. Ele é feio, vesgo, de visual questionável, mas é dócil e engraçado, ao mesmo tempo que tem um olhar arguto sobre as coisas mais simples, que nos faz pensar porque um cara desses não virou um Rubem Braga ou um Fernando Sabino. Suas crônicas videográficas espantam não só pela fluidez de suas palavras e pensamentos, mas pelo fato de que há uma compreensão do mundo a partir da normalidade, não precisamos da TV e de seus especialistas contratados, não é só de Jabores e Mainardis que temos de depender para entender o cotidiano. No mínimo, Pecê sabe ser engraçado e cativante, diz claramente que odeia música sertaneja e gente que ouve funk no celular alto no ônibus.
A diferença entre Rafinha e Pecê é gritante, mas ambos devem ter seu espaço. A sociedade é que deveria, em tese, estar preparada para a liberdade de expressão e não ao contrário. Enquanto silenciam Rafinha Bastos, deixam Silas Malafaia à vontade, por quê? Só porque ele é pastor evangélico? Agora os religiosos podem mascarar agressões em seus discursos e dizer, enquanto um humorista pode até ser preso por suas piadas? Ou todos falam, ou se calam todos. Assim, pelo menos, a lei se cumpre com equidade. Malafaia tem liberdade, espaço na TV e dinheiro para mentir a respeito de gays, lésbicas, transexuais, travestis, para distorcer a ciência, para impor uma interpretação da Bíblia como verdadeira, para incitar a intolerância sexual e religiosa e ponto final? Só isso? Ninguém vai reagir? Ninguém vai mover processos contra ele? Ninguém vai sair dizendo na TV que ele pode ser preso?
Não vai. E o motivo é porque Malafaia odeia o mesmo tipo de diferente que “a gente de bem” odeia. A única diferença, é que o pastor evangélico em questão fundamenta sua opinião da religião, assume uma posição contrária e beligerante. Ele faz o que muitos não têm coragem de fazer. Não que ele seja certo por fazê-lo. Mas pelo menos ele é um inimigo declarado, não aquele que se porta insidiosamente, por detrás dos panos, movendo-se silenciosamente. Pelo menos não é um delegado de polícia que faz corpo mole a um ato de violência contra minorias. Pelo menos não é um policial que acha que toda travesti é criminosa. Pelo menos não é um pai de família discriminador. Pelo menos não é um redator de novela que insiste em retratar gays estereotipados ou pasteurizados pela opinião da maioria.
Um estreito laço une Rafinha Bastos e Silas Malafaia: a noção de que agredir é normal. Na verdade, não desejo a prisão a ninguém, embora eu queira que a homofobia seja criminalizada. Até porque não se teria problema algum em criminalizar a homofobia, quando se condena alguém por agredir verbalmente outras pessoas. O que não dá é ser crime uma coisa e não ser outra, só por causa da homossexualidade. A agressão é crime porque já é previsto na lei o que pode e o que não pode ser dito a pessoas de modo ofensivo. Agora, quando se trata de homossexualidade, há uma imensa licenciosidade e silêncio. O mesmo que se indigna contra o Rafinha Bastos e seus xingamentos online ou na TV deveria se indignar contra o Malafaia a condenar as minorias sexuais à danação eterna.
Deixemos Rafinha Bastos sofrer, em liberdade extrema, inclusive de falar o que quiser a rejeição de fãs frustrados ou de quem o considera de mau-gosto. Deixemos Malafaia continuar a pregar a sua religião. Mas deixemos também o respeito alastrar, não por imposição agressiva e perniciosa às liberdades, mas pela noção da necessidade de convivência mútua harmônica.
Espero que isso seja de algum modo possível, ou então estaremos a trocar a criminalização da homofobia pela perda de liberdade individual, o que ainda continua a ser lamentável, já que há outras demandas sociais envolvendo a igualdade entre maioria e minorias.
Muito bom esse texto do meu cunhado….
21/10/2011 às 16:06