A sorte

Esses dias, ouvindo uma conversa, uma mulher disse que tinha sorte por nenhum dos filhos dela ser gay. Não sei quantos filhos tinha, nem sei se ela se referia exatamente à homossexualidade masculina, apenas, mas achei um absurdo. Uma agressão. Minha reação foi indignar-me com aquilo, a minha vontade foi não de agredir verbalmente, mas dizer umas palavras furiosas em sua direção. Talvez adiantasse. No entanto, não o fiz, uma constatação dolorosa me parou. Ela tinha certa razão. Ela poderia até mesmo estar errada por desmerecer a homossexualidade, ao não desejá-la aos seus filhos. Mas talvez estivesse certa, talvez estivesse, como mãe, a desejar que seus filhos não sofressem o que eu sofri, ou mesmo até pior, porque apesar de ainda sentir as dores do preconceito, sei que as minhas parecem cócegas perto das dores de outros tantos.

Não consegui continuar a ouvir a mulher. Nem sei como ela terminou aquela frase, talvez a intenção dela fosse mesmo ser preconceituosa, provavelmente. Mas já era tarde demais, dentro de mim já começava a ruir, de novo, aquela paz interior que a gente consegue, à custa de muito pensamento positivo e disposição para a fantasia de um mundo melhor. A realidade dura e fria me incomodava de novo. Era mesmo uma falta de sorte ser gay? Como responder a isso? Respondi que não, imediatamente, não poderia admitir uma coisa dessas, o preconceito não iria me deixar para baixo, eu não iria me tornar um pessimista de plantão, um coitadinho no melhor modelo de autocomiseração.

Mas cheguei à conclusão que esse discurso positivo não resolveria. De certo modo, não é fácil ser gay. Não é exatamente um azar, na acepção mais clara do termo, mas provavelmente era um problema. Todos ao meu redor não me aceitavam, assim, facilmente. Vivo um período de certa paz com relação a essas coisas, mas é uma paz de Versailles, delicada, onde eu é que perco mais do que quem me circunda. Em nome de uma convivência mais ou menos pacífica, aceito, nem sempre de bom grado, sugestões para não ser e não agir de tantos modos. Ainda me agride muito ver que rapazes respondem com caras feias, palavrões ou gestos obscenos aos meus olhares sobre suas belezas, ainda me dói saber que não poderei, tão cedo, pelo que percebo, ter a liberdade de dar um beijo no meio da rua. Eu conheço gays, conheço mesmo, pessoalmente, que já tem tão interiorizados em si o comportamento de autopreconceito, que aceitam esse tipo de agressão como natural. Homens heterossexuais teriam o direito de agredir verbalmente ao perceber que gays o observam, como se nosso olhar comportasse uma ofensa. Como se gays só pudessem olhar para outros gays, como se houvesse a possibilidade de sabermos disso antes de olhar, como se fosse errado desejar o outro do mesmo sexo. Isso me dói, tipos masculinizados me atraem como ímã. Ofende-me mais ainda saber que eles acham que é normal agredir gays.

Gostaria de ser mais aceito, de não ter sobre mim uma dezena de regras, sobre meu corpo, minha consciência. Não me sinto confortável nessa posição onde eu posso até ser gay, mas tenho de ser de um modo ou de outro. A maioria das pessoas que me aceitam é porque eu, de certa forma, mimetizo o heterossexual na minha forma de falar, vestir ou de me comportar. Não acho isso tão confortável. Há vetos, interditos, agressões em torno disso. Alguns já tiveram a coragem de dizer que só me toleram porque eu não sou assim, assado, e depois de ouvir isso, comecei desmantelar, conscientemente, esse tipo de proteção. Alguns se referiram a mim como uma pessoa de comportamento normalizado, normatizado. E nessa onda, condenaram as travestis e transexuais, agrediram os de comportamento efeminado. Tanto que eu passei, por conta disso, a tentar, ao máximo, anular uma possível masculinidade forçada que eu pudesse vir a demonstrar. Passei a ser mais espontâneo, mais caloroso, a expressar mais o que eu sinto e deixei de ter certos comedimentos desnecessários. Mas ainda assim fico a imaginar como eu seria se tivesse me desenvolvido numa situação de preconceito zero. Seria agenérico, masculino, feminino? Teria um comportamento de que modo? Como seria uma sociedade com esse nível de aceitação?

Não tenho exatamente azar em ser gay, como queria aquela mãe que falava perto de mim, mas tenho a sorte desgraçada de não mostrar na cara, no corpo a identidade clara do que sou, minha diferença não salta aos olhos, não sempre. Mesmo quando tento. Tenho o prazer em ser gay, mesmo dentro da cruel ilegalidade em sê-lo, mesmo dentro da transgressão em sê-lo, mesmo sabendo que posso não estar tão seguro, que posso não ser tão aceito, que tenho pagado um preço muito grande por isso. Desde então, comecei a invejar as travestis, as trans, os gays efeminados que eu tenho conhecido, comecei a desejar ser eu mesmo, mas um eu que ainda não veio à tona, que eu estou me esforçando para trazê-lo.

Quisera agora, e sempre, ter mais do que isso que eu mostro, ser mais do isso que eu mostro e como eu sou torto, aleijado pelo preconceito, fico a questionar se isso tudo que aconteceu comigo foi ou não foi azar. Talvez não tenha sido de todo azar, mas certamente não tenho a sorte do heterossexual que está num mundo que pode ou não cabê-lo. Eu estou num mundo que não me cabe, como se me fora dado por empréstimo e já estão a cobrar os juros dolorosos.

2 Respostas

  1. Nossa, Alex, esse teu texto é o mais perfeito e brilhante entre todos os seus que eu já li, todos brilhantes. Perfeito. Vamos lá: você é jovem ainda e no caminho não tem uma pedra só , mas é cheio de pedras. Mas, à medida que a gente envelhece – depois de já ter recolhido e chutado muitas…- a gente descobre que a psicanálise está certa quando fala que devemos nos importar cada vez menos com o que os outros pensam de nós e sermos mais a gente mesmo; descobre que Sartre estava certo no “O Inferno são os outros”… e resolve ser a suprema delicia de ser o que se é. Ponto. Mas, claro, aí a gente já está aposentado, não tem chefe nem família, o pai e a mãe já morreram ou estão muito idosos para opinarem algo, ou seja alguma liberdade mas só bem tarde na vida. Por isso eu luto para que as pessoas, na medida do seu possível , sejam autênticas e felizes, dentro da felicidade possível, desde cedo, que rompam com tudo o que os oprime, também na medida do possível. Não posso exigir de alguém LGBT que vá vestido como quiser no banco em que trabalha e cantar o chefe, por que ele precisa da grana no fim do mês para o aluguel. Mas eu posso, junto com ele, ir descobrindo como ampliar os limites. E isso, claro, exige muita briga e luta.
    Ser gay pode, sim ter muito de “azar” por que estamos inseridos num contexto machista, sexista, patriarcal e homofóbico. Mas, falando por mim, ser gay me abriu, sim, centenas de portas para o entendimento do mundo, para olhar meu semelhante com mais empatia, para entender a dor alheia, para não ser dominado pelas religiões – como o meu irmão fundamentalista é, tão infeliz sem saber que é infeliz – ser gay , no meu caso, me fez não ser machista e não reproduzir padrões banais de comportamento. Ser gay, acredite, me fez até fazer as pessoas que me cercam mais felizes. Então, teve uma boa dose de sorte, aí, também. Claro, não sou exemplo de nada, isso ocorreu comigo. Outros se matam. Eu mesmo, quantas vezes já não pensei em me matar, quando o caminho estava muito pedregoso e já não tentei duas vezes? Até o dia em que eu percebi que, se eu me matar será por que eu quis e não por que os outros refletiram essa decisão. E, ao perceber isso, que eu tinha essa força em mim, descobri algo próximo à felicidade.
    Parabéns, mais uma vez por um texto tão bonito. Você me enche de orgulho!
    Beijos,
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

    24/01/2012 às 07:15

  2. rafael lino

    O MAIS IMPORTANTE É QUE EU ESTOU AQUI E QUE TE AMO. NADA MAIS IMPORTA…. SÓ EU E VOÇE!
    TE AMO.
    SEU COMPANHEIRO E ETERNO AMANTE,
    RAFAEL LINO ROSA.

    01/02/2012 às 10:16

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