Eles não me representam

Johnny Hooker (part. Liniker) – Flutua

Corre nas redes sociais por aí imagens mostrando artistas como Renato Russo, Cássia Eller, Cazuza, dizendo que eram homossexuais talentosos, difamando Pablo Vittar, dizendo que a rejeição que ela sofre é por não ser talentosa, porque a música brasileira e internacional reconhece homossexuais, como Elton John ou Freddie Mercury. Eu não deveria estar perdendo tempo com isso, mas vamos lá.

Freddie Mercury, Elton John, Cássia Eller, Cazuza não me representam. Viveram épocas diferentes da atual, não se engajaram em nenhuma demanda identitária, pelo que me consta, não defenderam os direitos ou a igualdade de modo aberto e amplo, e suas atitudes, ainda que ousadas para a época, não questionaram o que Pablo Vittar questiona.

Entre a obra de Cazuza, Renato Russo e Cássia Eller, por um lado e Pablo Vittar, por outro, há uma distância de tempo e estética. Não objetivavam a mesma coisa. Pablo é toda popular, faz música voltada para diversão e seu universo drag. Ela me representa pois é uma drag queen, pertence ao espectro da homossexualidade, questiona a relação entre gênero e sexo biológico de maneira direta e intencional, cavou com suas próprias unhas uma oportunidade no acirrado mercado da música pop.

Só que Pablo Vittar fez um salto muito grande e não representa todas as pessoas como ela. Drag queens fazem parte de um grupo ligado à arte, ao luxo, são pessoas que transitam entre o gênero masculino e feminino. Muitas ostentam alto padrão de beleza e posses, em seus visuais e espaços que ocupam. Arte sempre foi um lugar contraditório, muitas vezes onde a miséria e a opulência se encontram em mesmos espaços, mas sabemos que a maior parte das travestis e transgêneros não têm condições de viver como Pablo Vittar ou outras estrelas de seu meio que agora têm aparecido, como Glória Groove, Aretuza Lovi ou as deslumbrantes Djeendjers.

Uma grande parcela da população de lésbicas, gays, travestis, transgêneros,  pessoas queer em geral não têm representatividade, não se sentem representadas por Pablo Vittar, eu não me sinto tanto, apesar de que ela me representa muito mais do que Renato Russo, que nunca levantou bandeira. Ele era obrigado? Não. Por isso mesmo é que ele não me representa. Na sua época, ele não vivenciava a sexualidade como algo político e identitário, mesmo Cássia Eller, que é mais atual, cujas atitudes eram mais coerentes com sua orientação sexual, não se punha à frente de nada, não desenvolveu sua arte a respeito de si mesma, não lutava pela aceitação, normalização e representatividade.

Há artistas que me representam: Johnny Hooker, Liniker, Linn da Quebrada. Tematizam a sua identidade, sexualidade e fazem música de padrão para além do pop comercial de Pablo Vittar, aproximando-se do erudito, por um lado, da arte alternativa, por outro, ou de expressões que sofrem muita interdição, como o funk e o rap, por serem de periferia. Realmente, eles mostram mais como é ser gay,  lésbica, trans, queer. Nenhum está ajustado à divisão binária de gênero, algo que nem todos gays e lésbicas fazem, mas parece ser infinitamente mais confortável e coerente, eles não são majoritariamente brancos e conseguiram ir longe sem o apoio incondicional da mídia de massa. Eu me sinto representado por eles.

Ao ouvir a canção do link que eu publiquei, sentimos uma influência direta de Cazuza, de sua sonoridade, mas está longe de sua temática que polemizava outras coisas: o país em decadência, a burguesia e suas contradições, o Brasil após a Ditadura Militar. O filme da canção “Flutua” tematiza também a violência contra gays, mostra essas pessoas em sua diversidade de visuais e formas de expressão, uma personagem é surda, isso não era possível na época de Cazuza. Por isso ele não me representa, talvez nem sequer representasse sua geração, que era escondida, na encolha, não concebia como possível que sua forma de amor pudesse ser tematizada e cantada de modo tão aberto. O vídeo é doloroso, por mostrar violência e contradições e a dura realidade da existência de gays na modernidade. Representatividade é importante, dentre outras coisas, por mostrar a verdade, numa época em que as pessoas reclamam demais da presença de gays, lésbicas, transgêneros na TV e no cinema, por exemplo…

Mas ainda assim, Pablo Vittar é muito importante, especialmente por ter se tornado popular e querida de uma grande parte da população, mesmo que ela não me represente tanto, SIM, ela me representa mil vezes mais que Cazuza.

 

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Proibido virar à direita…

Por que a direita não é uma opção política viável para o Brasil? Em primeiro lugar, já vivemos sob o governo direitista e liberal, desde o fim da Ditadura Militar. A ascensão do governo do PT em 2003, tendo se findado em 2016 não nos aproximou de tendências esquerdistas, mas de políticas de centro que se focavam claramente na manutenção da economia de mercado a todo o custo. O governo liberal do PT fez muito bem à direita, aumentou a sua pertinência política, deu-lhe protagonismo e ofereceu-lhe uma extensa pauta de contestação para que direitistas pudessem se articular.
E ano de eleição é o ano das mágicas. Partamos para o maior paladino da esquerda, o bufão Bolsonaro. Sua incapacidade de governar o país só perde mesmo para a idiotice de seus apoiadores públicos. Idiotas, debiloides, adolescentes abaixo da idade de voto, nazi-fascistas, intolerantes… Esse grupo se encherá, no entantanto, de cidadãos de bem  indecisos, pessoas que não têm opinião formada contra Bolsonaro, mas que veem na renovação a todo o custo algo positivo, já que a esquerda petista não foi capaz de trazer e manter a tal justiça social e os partidos contra o PT estejam atolados de lama até seus pescoços de colarinho branco. Essa pode ser uma adesão natural, já que partidos de extrema direita tendem a vender sonhos também: sonhos de um Brasil próspero e livre, o mesmo sonho de JK e Getúlio, que há quase um século atrás tentaram mas não conseguiram a contento, vide a bagunça que eles e seus sucessores têm deixado desde então… Essa cultura do eterno fracasso político, em vez de trazer renovação traz, na verdade, a necessidade sempiterna de acalento, o povo, essa entidade estranha, uma espécie de média de todas as consciências individuais de um país, pede melhores condições, e isso pode vir a qualquer custo, inclusive se for preciso sacrifícios inúteis de liberdades individuais e desenvolvimento. A receita para o próximo fiasco está dada, agora basta esperar que a campanha aconteça, que os resultados apareçam. A chance de o Brasil, no entanto, trazer o PSDB novamente à presidência é ainda maior do que eleger Bolsonaro, o problema é que o PSDB representa melhor as tendências da direita que ainda têm relevância política, mas pode não se sustentar como única direita elegível.
Ainda que seja complicado, politicamente de mau tom que algum candidato defenda uma hierarquia social tradicional  baseada na exploração porque a desigualdade social é inevitável, é normal que haja uma defesa dessa desigualdade, geralmente baseada num princípio nada objetivo de que o homem tende naturalmente a isso, praticamente uma crença metafísica na permanência da dependência e da pobreza. Essa defesa não é direta, defende-se a economia de mercado, a dependência de capitais estrangeiros, embora nenhuma delas seja exatamente pauta necessária à direita. O que é essencial, em termos econômicos, é que haja uma minimalização do Estado, mercados livres e a inciativa individual. Essa faceta da direita faz com que o grupo seja extremamente heterogêneo. Enquanto conservadores atacam pelo lado da manutenção de hierarquias tradicionais, doem-se pelas mudanças nos valores impressos pelas novidades culturais, atacam a modernidade de todos os lados, é comum que liberais direitistas, embora possuam leituras críticas da modernidade, sejam entusiastas dela quando se trata dos potenciais econômicos infinitos de desenvolvimento de mercados trazidos pelo capitalismo.
Há uma direita conservadora e outra liberal, ou como chamam os críticos marxistas mais agressivos, neoliberal, termo que não faz muito sentido dentro do espectro econômico, mas que nomeia a tendência mais relevante da direita dentro da economia que deseja a diminuição do tamanho e da ação dos governos (nos campos econômico e social) e, de acordo com as denúncias dos intelectuais marxistas, esses neoliberais querem forçar uma dependência de privilégios, manipular governos para novos itinerários de protecionismos, liquidar direitos para que seus objetos possam ser explorados mercadologicamente e, dessa forma, aprofundar as diferenças sociais e levar a mais pobreza e exploração. Na verdade, marxistas precisam alimentar a ideia de exploração, um conceito que, em termos deles, não tem fim, não tem limite, tudo é exploração, a esmagadora maioria das pessoas é explorada e o infinitésimo da população que não é compõe burguesia e detém poderes infinitos sobre o resto, apertando-as sob o calcanhar da desigualdade.
No entanto, a desigualdade que o marxismo denuncia é muito pior na prática, é cheia de estratos e os desiguais que não são a minoria burguesa detentora de poder também exercem poder e exploração dentro de microesferas, assim como explorados da base também exercem micro-resistências múltiplas e esse sistema de exploração só existe porque a sua manutenção não é uma estratégia econômica de manutenção de sistema de classes, faz parte da panóplia estatal usada na gestão populacional, mas não é também da posse do governo, ela pode circular por seus meios, mas não se fixa nele. A exploração não pertence ao governo, nem mesmo ao burguês, as classes sociais se liquefazem ante as possibilidades múltiplas de micro-organização social dentro dos estratos de bordas incertas, platôs múltiplos de largos patamares horizontais. A figura do burguês proprietário, dono de força de produção não tem mais local e sua heterotopia atende a uma necessidade de dispersão das forças de contenção e gestão da população. Acreditar que haja uma binariedade nesse complexo revela a falta de inteligência de quem assume essa ideia, seja essa pessoa o intelectual orgânico marxista esquerdista que organiza o suposto proletariado, seja ela o direitista que pensa que se pode explorar livremente, que acha que defende a exploração como forma de existência natural do homem em sociedade.
Assim, o direitista tradicional se torna uma espécie de debiloide esquizofrênico ligado a tradições sem comprobabilidade, lutando pela manutenção de algo que não mais existe, a hierarquia social que divide todos em estamentos clássicos em detrimento de direitos humanos, contra a diversidade a favor de privilégios de certos grupos que detêm mais poder. Ou seja, o direitista se sente nobre ou partidário da nobreza, ou indiferente a isso tudo acha natural que uns tenham mais do que os outros e acha que isso é a fonte de paz e estabilidade que tanto deseja. Essa certeza esquizoide não é compartilhada pelo direitista liberal, que pensa ser a estrutura econômica depende da manutenção do liberalismo e do capitalismo, mesmo que isso signifique concentrar riqueza e valor a despeito do esforço que é conter dentro de limites da economia formal e estruturada a força de trabalho e o fluxo de riquezas.
Consciente disso, o economista liberal, a versão antitética direitista do intelectual orgânico marxista, justifica a necessidade da manutenção de estruturas econômicas baseadas em hierarquias de produção e fluxo de riquezas e valores, admite o conflito permanente entre o trabalho e o capital (esse corpo sem órgãos deleuziano a que se acoplam diversos maquinários de desejo, eterno organizador das coisas e motivo principal das explorações, desculpa-mor para não pensar a economia em termos mais apropriados ou ainda aquela coisa com a qual não sabemos se podemos concordar e não parece certo discordar) e acredita também cinicamente em motivos metafísicos para que as relações econômicas aconteçam sob a égide da livre iniciativa, ainda que isso nunca seja garantido a todos, ou mesmo àqueles que possuem um pouco. Ou seja, o poder de deter grandes focos de produção de riquezas e captação de força de trabalho precisa ficar na mão de quem já os tem, independente, claro, dos sujeitos, indivíduos, já que um rico empobrecer não significa que seu dinheiro foi parar na mão dos pobres, mas certamente se reconcentrou na mão de outros ricos iguais ao que se foi.
A partir disso, temos que repensar o conflito que a política tem que gerir. Não é mais entre burgueses e proletários, não é mais entre classes sociais, mas entre pobres e ricos e todos os múltiplos patamares que essas categorias podem ter. A dissolução da lógica marxista de classificar tudo em burguesia e proletariado ainda persiste, assim como a permanência das múltiplas abordagens direitistas de sociedade mostra que não temos ainda compreendido como abordar a questão. Riqueza e pobreza não é exatamente uma questão técnica, metodológica, é algo claro e concreto, lidar com isso requer um refinamento de posturas e abordagens práticas que possam superar as limitações da esquerda e da direita. No entanto, esses dois modelos antagônicos continuam, são ideias que seguem a regra memética de propagação pela sociedade, espalham-se como crenças, por afinidades sociais. As pessoas acreditam em economia e política, elas não constatam dados e práticas que possam orientar as suas escolhas, geralmente. Mesmo economistas e cientistas políticos não são neutros, a ciência não é neutra, é um dentre muitos saberes que se orienta por regimes de verdade e por determinados exercícios de poderes. Ciência ou outros saberes, verdade e poder se mantêm através de níveis de concordância desejados, mas nem sempre pacíficos o tempo todo. Nessa relação trina, se não há mudanças bruscas no modo de exercer o poder, a desestabilização vem pelo saber, que possibilita regimes múltiplos de verdade, mesmo quando sua relação com o poder instituído é positiva. Principalmente em casos em que alternâncias de poder não precisem exatamente destruir estruturas sociais, as modificações dos saberes são comuns, nesse caso, ideários políticos tais como esquerda e direita, tendem a se alternar, a se colidir, a se enfrentar pela oportunidade de produzir verdades e orientar o uso dos poderes em sociedade.
Não é impossível então que ideias de esquerda e de direita estejam espalhadas por todos os estratos sociais. Pobres podem crer na direita como uma forma de garantir seu futuro, pois podem acreditar na ideia de que haja mesmo a possibilidade concreta de qualquer um ascender social e economicamente por meio da inciativa individual, uma das pautas de defesa da direita econômica. Mas pobres ainda podem ter apreço por valores sociais tradicionais, religiosos ou historicamente prestigiados. Isso pode levar a uma orientação para a direita, seja ela qual for, seja isso consequência ou não de se crer também em economia. Do mesmo modo, ricos podem crer na esquerda e desejar que haja divisão mais justa de recursos e trabalho menos exploratório, acreditem ou não na possibilidade de uma revolução que possa desordenar a produção e reordená-la, uma vez que mesmo a mais utópica das esquerdas não sonha com revoluções comunistas, que jamais seriam vistas como um problema apenas do país em questão, mas atrairiam pressões, sanções e até intervenções indesejadas de outros países, por exemplo. Os ricos também podem se organizar em torno da esquerda a partir de sua extensa pauta socioeconômica, ambiental e política. A esquerda marxista não é a única polarização possível, há outras possibilidades, há cristãos de esquerda, há os grupos que lutam pela diversidade humana, inclusão social, há os ecologistas, radicais ou não, até mesmo posturas como o vegetarianismo são vistas como de esquerda, mesmo que não sejam exatamente ligadas a práticas políticas libertárias e questionadoras da ordem vigente.
Nesse ponto, é importante retomar a política brasileira. De um modo geral, ela se orienta basicamente em torno de uma direita econômica liberal não conservadora, que busca minimizar o peso do Estado na economia, o aprimoramento da economia de mercado, por um lado; e por outro em torno de partidos de centro-esquerda, geralmente existindo em torno do PT, que por sua vez defende propostas de média a forte intervenção do governo na economia, não economizou recursos em manter um Estado oneroso em seus governos e faz ainda sua pauta em cima da manutenção do papel estatal de fazer viver e deixar morrer, como tarefa básica do governo em diversos níveis, quer o governo ceda parte disso para o setor privado ou não.
Com uma agenda cheia de ações afirmativas de melhora de vida da população, como o combate à fome e a distribuição de renda por meio do Bolsa Família, estratégia usada por governos estaduais e municipais nem sempre do PT pelo país, o governo teve como trunfo a circulação de dinheiro por mercados varejistas, o aquecimento do setor de bancos e serviços bancários em geral, o aumento da arrecadação de impostos estaduais e municipais como consequência. No entanto, isso não garantiu um crescimento econômico que pusesse o país em situação permanente de desenvolvimento. A fragilidade das melhoras, somada à insatisfação política, além da enxurrada de denúncias contra o PT e seus aliados levam a crer que o país era governado por líderes populistas que escondiam pesados esquemas de corrupção e roubo de recursos públicos.
O fim do mandato do PT em 2016 foi crucial para que o discurso de direita econômica inundasse a mídia televisiva, jornais e revistas. O Brasil ia mal porque arrecadava muito, mas gastava errado e não garantia as mudanças sociais. Com isso, a ideia de se recuar nos avanços para a população mais pobre pareceu mais claro. Aumentar pouco ou quase nada o salário mínimo, aumentos constantes nos preços de mercadorias e serviços, medo da crise energética e de abastecimento de água, aumento de impostos, mudanças nas leis trabalhistas, o vir-a-ser de uma complicada e impopular reforma da previdência parecia ser o remédio amargo para um país que ia mal do fígado por causa dos anos irresponsáveis do governo petista. A pecha de governo corrupto e incompetente, no entanto, segue o governo do PMDB. Nenhum partido ou quase nenhum está livre de denúncias nas mega-operações contra a corrupção, como a Lavajato da Polícia Federal e poder judiciário. As prisões e subsequentes delações premiadas, a constante conexão entre o conceito de partido político e criminalidade criou até um movimento interessante com uma incomum onda de mudança de nomes de legendas. Abandonando siglas que começam com a letra P, muitos partidos adotam slogans na tentativa de chamar de volta eleitores desacreditados.
Esse movimento também registra o crescimento de setores de direita na política. A única chance que a esquerda teve de governar o Brasil foi-se com o impeachment de Dilma Rousseff e a atual condenação em segunda instância de Lula por corrupção passiva. Agora, é hora das direitas, quaisquer que sejam, ou da reorganização da esquerda pulverizada, órfã de seu líder popular e com um passado de gestão questionável e corrupta, em tentar se organizar e reagir. Isso, no entanto, parece tornar o plural e multipartidário cenário político brasileiro na cansativa binariedade, polarizando em esquerda de um lado e direita de outro. Esse arranjo é temporário e parece durar enquanto duram campanhas e discursos para que um ou outro se elejam, depois, toda a classe política passa a agir como um organismo vivo cujos órgãos não se conectam adequadamente, mas no fim, acaba vivendo com alguma eficiência. Essa metáfora cai bem para explicar uma classe política que profissionalizou seus agentes, enchendo-os de riquezas, altos salários, luxo e privilégios perante a lei. Nesse ponto, não há como negar que todos os partidos políticos abracem a proposta direitista de manutenção das tradições políticas e valores que as suportem, mesmo que isso custe mutilar a democracia, afinal vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, presidentes e o judiciário têm privilégios que os tornam ricos, empoderados, lutando do lado e por outros ricos, aumentando diferenças sociais em vez de combatê-las. Nesse ponto, não há ninguém na política e no judiciário a não ser direitistas, independente das legendas. E de certa forma, pode-se entender o combate à corrupção não como algo que objetive o cumprimento descompromissado da lei, mas como um movimento de auto-regulação da classe política em torno da manutenção de seus benefícios. Vão-se anéis, ficam os dedos, a população continuará a votar e pagar impostos, o ciclo não se rompe, felizmente (para eles).
A esquerda petista que se desenvolve à sombra de um marxismo político fora de moda, a direita econômica que cinicamente defende a manutenção e aprimoramento do empobrecimento das camadas mais pobres da população como sugestão para melhorar a economia seguem assim seu curso natural pela política. Além disso, direitas e esquerdas radicais pipocam em novas legendas. Bolsonaro não é mais apoiado por adolescentes debiloides viciados em videogames violentos ou idolatradores de Hitler. Bolsonaro dá fluxo a um discurso de ódio que ainda é comum e muito disseminado na população, as pessoas odeiam. Odeiam muito, odeiam gays, lésbicas, travestis, deficientes, surdos, outros têm medo de que pobres causem baderna, temem pela destruição da família, quer ela seja eficiente como meio de coesão social ou não e a vida continua. A direita liberal não adota discursos de ódio, evita o conservadorismo, veta o ultraconservadorismo, a ideia é o bem-estar de todos, já que riqueza para todo mundo não pode acontecer por motivos metafísicos, ideológicos, arraigados na mentalidade humana. Quase somos convencidos de que não há condições para que os seres humanos vivam num mundo igual.
Já a esquerda acredita ingenuamente na igualdade, e acha que fingir lutar por ela é o suficiente. Sob legendas de esquerda, sempre houve injustiças terríveis contra os mais pobres, e sob a égide do governo do PT há crimes cometidos, corrupção, abuso de força policial, agressões, abandono, desvio de recursos, mau emprego de verbas, abandono de obras essenciais, desrespeito à diversidade, pouco avanço nos direitos de trabalhadores, piora da situação de violência em populações que vivem em estado de risco social, abandono da segurança pública, piora das condições de vida no campo, avanço da exploração, fome, doenças disseminadas, guerrilha urbana, abandono das populações indígenas, enfim, nenhum governo de “esquerda” do Brasil pareceu exatamente capaz de lidar com essas coisas, as tensões continuaram e ajudaram a erodir o governo petista por dentro, já oco de corrupção, porque escolheu governar por meio de alianças espúrias, de abusos de poder político e econômico.
Portanto, esquerda e direita corresponde a duas posições fictícias, oriundas de metanarrativas tradicionais políticas que não mais se ligam à ideia de classe social, que se pulverizaram junto com essa noção, na contemporaneidade. O fato de que haja ricos de esquerda e pobres de direita no nosso país mostram que se trata de fé, crenças em ideias tais como se apresentam nos discursos dos políticos, e não exatamente em configurações políticas, econômicas e sociais que advêm da realidade. Entender a política no Brasil é um esforço de se entender a economia do simbólico em torno na política, da religiosidade implícita e pouco objetiva que rondam as tomadas de decisão por parte dos eleitores. A situação é perigosa, pois se vive situações no país inteiro que, infelizmente, precisarão da mediação de saberes um pouco mais exatos do que a crença positiva, a fé no Brasil. Crença na economia, crença no futuro, fé no que virá, brilha uma estrela, viva a esperança, juntos chegaremos lá, fé no Brasil, avante nação unida, todos juntos pela nação podem ser insuficientes para mudar o necessário… A evidência de que estamos no meio de um combate religioso entre duas crenças só não é mais desesperadora do que a visão escatológica do futuro que elas parecem reservar ao país.
Enfim, virar à esquerda é algo ainda um pouco incerto, mas ainda é necessário. É tempo de se pensar no que fazer, de que forma fazer uma mudança, não se pode mais continuar a sempiterna crença nos partidos antigos nas pessoas de praxe. Novas configurações de esquerda com novas práticas são bem-vindas, mas onde estão, porque não se manifestam, quanto custa, qual o tempo necessário para que elas possam romper essa cultura espiritual, religiosa, metafísica da esquerda marxista oposta à direita capitalista no Brasil? Muitas questões, provavelmente não dá tempo nem de começar a respondê-las antes do resultado das eleições. Mas até lá, pensemos bem e jamais tentemos virar à direita.